OS CUIDADOS COM O CUIDADOR 👨🏾🏫“Um profissional de saúde é uma pessoa que sofreu profundas modificações como resultado de treinamento especializado, do conhecimento e da experiência; são pessoas diariamente expostas à dor, à doença e à morte, para quem essas experiências não são mais conceitos abstratos, mas sim, realidades comuns. De muitas maneiras, é como estar sentado na poltrona da primeira fila no teatro da vida, uma oportunidade inigualável para adquirir um profundo conhecimento e maior compreensão da natureza humana”.
Nesse mesmo cenário ocorre o aprendizado da profissão do profissional da saúdr, onde, o aluno de graduação é apresentado à complexidade do campo de trabalho da saúde e de todas as suas vicissitudes.
As inúmeras atribuições a serem aprendidas pelo profissional da saúde, somam-se as expectativas frente à liderança, humanização da assistência, competência, motivação e desenvolvimento de relações terapêuticas. Essa situação nos fez refletir sobre a importância dada ao aprendizado do cuidado com o profissional que cuida, em particular o gerontólogo/cuidador, uma vez que consideramos ser fundamental estarmos bem e integrados conosco para trabalharmos satisfeitos e saudáveis.
As oportunidades de observar o funcionamento dos serviços de saúde levaram-nos a vários questionamentos sobre: Como a equipe de foi preparada para enfrentar, com saúde física e mental, tal rotina? Receberam suporte para o enfrentamento dessa situação? De que maneiras estes extravasam as tensões acumuladas no ambiente de trabalho? Afinal, como atender aos clientes e se relacionar com a equipe de forma humanizada, quando a humanização não se aplica ao profissional da saúde?
Frente ao exposto, tive como objetivo neste texto fazer uma observação acerca do cuidado que o cuidador precisa ter consigo, em particular, aquele que compõe a equipe de enfermagem, bem como os aspectos mais relevantes no aprendizado dessa habilidade sob a ótica do graduando em cuidados.
O cuidado por sua própria natureza possui dois significados que se inter-relacionam, por ser uma atitude de atenção e solicitude para com o outro, ao mesmo tempo em que representa preocupação e inquietação, pois o cuidador se sente envolvido afetivamente e ligado ao outro.
O ato de zelar por alguém só existe quando é sentido, vivido, experienciado. Isto envolve respeitar ao outro e amar o outro como a si mesmo como ser humano e também como profissional. Diante dessa verdade, para que a atmosfera de cuidado ocorra de forma verdadeira e acolhedora, é mister que a intenção do cuidador fique clara, ou melhor, seja demonstrada genuinamente por palavras e ações. Esta ação é repleta de sensibilidade delicadeza, solidariedade e profissionalismo e ética, pois, deve excluir preconceitos de qualquer ordem e utilizar a relação interpessoal como base entre seres humanos.
Para nos envolvermos dessa maneira é necessário um preparo emocional do profissional que irá, conseqüentemente, se expor e se colocar como ferramenta de trabalho. Outro aspecto fundamental nesse processo é a disponibilidade do cuidador para entender e lidar com a “pessoa inteira”, uma vez que para isso ele se coloca diante da sua própria existência.
Vale ressaltar ainda que o processo de cuidar não deve se pautar somente na identificação dos sinais e sintomas clínicos da doença, mas nas modificações que ocorrem na estrutura dos seres humanos as quais abalam a sua totalidade.
A compreensão desses aspectos é fundamental para o reconhecimento do conceito e do significado de cuidar para o profissional de saúde, pois “a tarefa de cuidar é um dever humano. Cuidamos porque queremos ser mais felizes, plenos e para alcançarmos a felicidade é fundamental que cuidemos bem de nós mesmos e dos outros. A condição humana é tão frágil como efêmera, requer equilíbrio e constantes cuidados pessoais, sociais e ambientais”
🤔PORQUE O PROFISSIONAL PRECISA SE CUIDAR LÚCIO?
A história do cuidado humano como ciência tem uma ligação importante, no entanto, o foco da atenção sempre foi mais voltado para o cuidado do outro, o ser doente, mas nunca o cuidado ao cuidador. Quem garante ao cuidador, em seu trabalho, o alívio do sofrimento e manutenção da dignidade em meio às experiências de vida e de morte?
Percebemos que tais características possuem algo em comum. Todas elas, em maior ou menor intensidade, são cercadas pela abnegação do eu, pela renúncia dos sentimentos e da vontade própria. Parece-nos claro, ainda hoje, que diante da população em geral e de muitos colegas de profissão, tais pontos são indispensáveis na caracterização de uma boa assistência de cuidadores.
De igual forma, o processo de formação dos profissionais da saúde foi guiado por essas características, sempre muito presentes e, acrescido da excelência pela técnica, fundamentada no modelo biológico, sem que fosse dada a mesma importância para os processos relacionais, fundamentais nos dias de hoje.
Todavia, vale lembrar que o ser humano não foi “configurado”, como uma máquina, podendo despir-se de suas vontades e necessidades. Enquanto ser humano, também refletimos sobre quão difícil é a missão de formar profissionais da saúde e inserir neste contexto de formação a abordagem holística como base para as ações e a própria profissão.
Temos clareza da importância do papel dos profissionais da saúde não apenas dentro de um hospital, mas em todo o sistema de saúde e, da relevância da qualidade do desempenho desse profissional. A responsabilidade atribuída a eles e os inúmeros aspectos que dele dependem para uma boa assistência talvez nos ajudem a entender o motivo da grande valorização e preocupação da precisão técnica e seu embasamento em conhecimentos científicos.
Ocorre, porém, que o mercado hoje exige algo mais de nós. O perfil profissional do cuidador da atualidade requer muito além de um conjunto de conhecimentos técnico-científicos. É preciso, por exemplo, que este profissional saiba com maestria, lidar equilibradamente com a razão e a emoção, que tenha conhecimentos, habilidades e atitudes relacionais, que desenvolva competência interpessoal e capacidade de liderança, que valorize enfim, o seu desenvolvimento como pessoa para balizar o seu desenvolvimento profissional.
Ao se referirem à importância do investimento no desenvolvimento pessoal do cuidador, sinalizam aspectos relevantes e necessários a esse processo, como por exemplo, a implantação de planos de desenvolvimento profissional e pessoal, fortalecimento das relações interpessoais no trabalho e programas específicos de promoção e prevenção da saúde física e mental dos profissionais.
E por sua vez, indica que tais providências são fundamentais para o fortalecimento dos projetos de humanização das instituições de saúde, tão em evidência nos dias de hoje. Ao negligenciarmos esse aspecto, a humanização não passa de um projeto de melhorias estruturais dos prédios, porque não cuida daquilo que mantém a instituição que é a teia interacional, concretizada através do conjunto de relações presentes no cotidiano dos serviços.
Na realidade, tais aspectos são relacionados às características genuinamente humanas e daí a certeza da impossibilidade em dissociá-los da nossa prática em cuidar de pessoas.
A sociedade com a qual lidamos hoje, não é a mesma de ontem. O bombardeio de informações que chegam aos lares brasileiros, um dos frutos da globalização, tem diminuído o desconhecimento das pessoas no que se refere aos seus direitos. Hoje, até os mais humildes cidadãos têm consciência de que são merecedores de respeito e lutam pelo que querem, ainda que em muitos casos de maneira precária. Neste contexto, o cuidador deve ocupar o seu espaço como profissão que se preocupa com o respeito à pessoa, sua dignidade e individualidade.
Em um momento singular como este, de expansão profissional e sócio-econômica, profissionais devem se preocupar, com seriedade, em ser direcionados para consolidar-se como a profissão do cuidado e cada vez mais, devem primar por cuidar de seus próprios cuidadores.
As pessoas que cuidam, sejam elas profissionais ou familiares, acabam por sofrer um grande desgaste emocional, porém passam a idéia de que cuidam também de si mesmas. Ocorre que cuidar e ser cuidado envolve relação de gente com gente.
Nesse sentido, precisamos e devemos nos preocupar conosco e dar lugar a nossa necessidade de gregária, de sentirmo-nos amparados por alguém. Essa é uma necessidade também do profissional que cuida. Acreditamos que uma equipe de profissionais que se sente zelada e valorizada por seu líder, certamente saberá devolver este cuidado, quando se fizer necessário.
Ninguém pode dar ao outro o que não tem, diz um antigo provérbio, é fato, por conseguinte, que seremos mais eficazes na nobre tarefa de cuidar se nos dispusermos a promover o bem estar do outro sem esquecermos do nosso próprio.
É muito importante que este caminho seja dado como opção aos graduandos de Enfermagem para que estes cresçam não somente como profissionais, mas como pessoas.
👉🏾Gerontólogo Lúcio Monteiro de Castro
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